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Aquecimento Global e a situação em Rio Grande

15/12/09

 

Dirceu Lopes e Leonardo Tortoriello Messias
Texto adaptado da II Conferência Regional sobre Mudanças Climáticas Globais: América do Sul. Universidade de São Paulo 2007
 
O aquecimento do sistema climático é inequívoco. Ficou evidente pelas observações do aumento da temperatura média global da atmosfera e dos oceanos, da aceleração do derretimento da neve e do gelo, e da elevação do nível do mar. O aumento da temperatura média do planeta em relação ao período anterior à revolução industrial (final do século XIII - 1780) é seguramente uma conseqüência do aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, de origem antropogênica, ou seja, das atividades humanas. O acréscimo global da concentração de dióxido de carbono se deve primeiramente ao uso de combustíveis fósseis e à mudança radical no uso da terra.
A mudança climática pode provocar uma interrupção no crescimento econômico. Estima-se que prosseguir na tendência atual vai conduzir a uma redução do bem estar coletivo equivalente a uma diminuição do consumo per capta entre 5 e 20%. As alterações no clima se constituem em um obstáculo maior à redução da pobreza. Uma parte considerável do crescimento das emissões dos gases do efeito estufa tem origem nos países em desenvolvimento, devido ao crescimento da população e do PIB, e da crescente localização de indústrias de energia intensiva nesses países.
De fato, a mudança global do clima já vem se manifestando de diversas formas, destacando-se a maior freqüência e intensidade de eventos climáticos extremos, alterações nos regimes de chuvas, perturbações nas correntes marinhas, degelo das geleiras e elevação do nível dos oceanos. A maioria dos desastres naturais no Brasil está associada diretamente a extremos climáticos e com o prosseguimento do aquecimento global, esses eventos se tornaram mais freqüentes, como os ciclones em Santa Catarina, as cheias no Rio Grande do Sul, a seca na Amazônia, etc.
Os impactos previstos na zona costeira são de especial relevância em um país com a extensão de litoral como a do Brasil, aliado à concentração populacional em centros urbanos situados ao longo da costa. Erosão costeira, danos sobre obras de proteção do litoral, portos e cidades litorâneas, sistemas de saneamento, intrusão salina em estuário e em aqüíferos, ou a dificuldade de penetração de água dos oceanos nos estuários.
De uma forma geral, por vivermos sobre os continentes, os efeitos das mudanças climáticas na terra, recebem mais atenção dos cientistas, políticos, tomadores de decisão e tem reflexo na sociedade, do que aqueles efeitos que são sentidos nos oceanos. Entretanto, tendo em vista o papel fundamental dos oceanos no armazenamento e transporte de calor, carbono e outros elementos que impactam o sistema climático, a importância dos oceanos é indiscutível.
Os oceanos ainda removem a maior parte da diferença entre as emissões de carbono e quantidade presente na atmosfera. Por outro lado, sabe-se também que o aumento da temperatura global altera o pH dos oceanos, tornando-os mais ácido, diminuindo assim a capacidade de absorver o carbono. Este aumento da temperatura também modifica profundamente o sistema de circulação das correntes oceânicas. Como as áreas costeiras são as mais sensíveis às respostas dos oceanos às mudanças climáticas, as conseqüências nestas áreas são de grandes proporções. O desequilíbrio térmico já provocado deve ainda continuar por vários anos, mesmo que paremos agora de alterar o clima.
O que está acontecendo em Rio Grande, nos últimos meses, tende a ser cada mais freqüente em função das alterações no clima. O aumento da intensidade de chuvas, que vem acarretando sérias alterações no regime hidrológico da Lagoa dos Patos, dificultando a entrada de água salgada no interior do estuário e acumulando as águas nas margens da cidade de Rio Grande e as ilhas estuarinas, vai continuar causando transtornos e prejuízos das mais diversas ordens.
Pode, por vezes, parecer que somos impotentes diante das conseqüências das alterações no clima do planeta, mas na verdade, são as nossas ações que estão agravando as situações que vivemos nos dias de hoje. Nossas, incluindo a sociedade civil, os governantes, tomadores de decisão, os empresários, todos que fazemos nossa cidade, nosso estado e o Brasil crescerem.
No caso de Rio Grande, ações básicas de gestão do uso do solo, de conservação do meio ambiente e para o desenvolvimento sustentável da pesca, podem minimizar os efeitos adversos que estão postos para nós, e que já vivenciamos há muitos anos, simplesmente, muitos de nós ainda não nos demos conta. São ações necessárias à adaptação aos tempos atuais, face à vulnerabilidade que estamos expostos, especialmente na zona costeira e próximo ao mar.
É inaceitável que as construções continuem ocupando as margens das áreas passíveis de alagamento. A perda destas áreas pelo avanço urbano sempre vai acarretar em gravíssimos danos, tanto materiais quanto pessoais. Os efeitos das enchentes são desastrosos para as famílias que habitam essas áreas marginais às lagoas.
É inadmissível que ainda sejam registradas, em menos de uma semana, as mortes de mais de 200 toninhas (mamíferos marinhos parecidos com os botos) por ação ilegal dos barcos de pesca que operam com dezenas de quilômetros de redes de emalhar. Também não podemos permitir que nosso litoral continue a ser varrido pelos barcos de arrasto que dizimam a nossa criação das principais espécies de pescado.
São fatos que ocorrem há anos e assistimos muitas vezes passivamente, e nem ouvíamos falar das mudanças climáticas.
Devemos tomar como exemplo os nossos esforços para recuperar as dunas do Cassino que protegem o balneário. Trabalho singular que já mostrou seus benefícios para a natureza, para nossa qualidade de vida e para desfrute dos nossos olhos. Semelhante às dunas, outro exemplo de proteção da costa, mas de proporções muito maiores foi quando ocorreu o tsunami na Indonésia e arredores, em 2004. As áreas menos afetadas foram aquelas cujos manguezais e os recifes de coral estavam preservados, ou seja, havia maior proteção contra o avanço das águas do mar.
Ações preventivas, de natureza muitas vezes simples. Simplesmente preservar e conservar nossos bens e recursos naturais que são de muita valia para nosso futuro. Não precisamos esperar mais alarmes.
 
 
 
 
 
 

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